Seção

04 / Escritos

Rosalia, Artemis, farpas e satélites.

13.08.2026

Na terça-feira, fui ao show da Rosalia, no Rio. Estava feliz por vê-la interpretar canções que já tinha ouvido um milhão de vezes e pelas quais estava encantado: a riqueza de métricas e compassos, gêneros musicais, estilos de lirismo e poesia que ela abarca em LUX me arrebataram em diversos sentidos.

Tem uma música desse disco, que gosto muito, La Yugular. Na última estrofe, Rosalia faz uma coisa que sempre me impressiona quando escuto ou leio: um jogo entre o que cabe e o que não cabe, dentro do mundo e dentro de si. É um vai-e-vem entre coisas imensas e coisas ínfimas. Esse movimento do micro para o macro produz uma sensação quase vertiginosa de sair (de si) e voltar (para si), e foi por essa sensação que eu fui engolido durante o show.

Rosalía em show no Rio de Janeiro

Eu estava diante de uma artista muito impressionante, lindíssima, exuberante, com uma voz muito potente, e vê-la mais ou menos de perto (já que se tratava de uma arena, e São Paulo precisa de um espaço como esse, mas isso é outro texto) dava uma dimensão humana à figura dela, que se contrapunha ao tamanho da obra e à grandiosidade da sua apresentação.

Por mais impressionante que ela fosse, diversas vezes ao terminar uma música ou iniciar um novo ato, ela abria um sorriso, ou dava mesmo uma risada, ou fazia uma expressão que revelava que, por trás daquela presença gigantesca, havia... uma mulher. Uma mulher jovem, aberta a se expressar de maneira muito vulnerável, chorando, rindo, confessando, improvisando. Acho que ela fez ali uma transcrição muito completa da experiência humana.

Rosalía em show no Rio de Janeiro

Essa sensação de uma potência gigantesca coexistindo com uma vulnerabilidade tão expressiva me fez pensar novamente naquela estrofe, uma sequência de tombos de um país para uma farpa para uma galáxia e uma gota de saliva, e me lembrei de um vídeo que vi, do Hank Green, no qual ele mostra uma sequência de imagens feitas pela Artemis, a missão que foi dar a volta na Lua.

As fotografias da missão foram disponibilizadas integralmente pela NASA, e alguém reuniu uma sequência de algumas delas, que não pareciam ter nada de excepcionalmente chamativo, em uma espécie de GIF. Quando se vê essa sequência, a Terra parece estar viva: é um pequeno recorte, talvez de dois segundos, de uma nave se afastando do planeta e revelando tempestades de raios em determinados lugares, as luzes das cidades acesas na parte noturna do planeta e a Lua refletida na superfície do mar (!!!). É por si só, um assombro. Mas, ainda, nos cantos da imagem, é possível perceber pequenos pontos se movimentando próximos à nossa finíssima e vulnerável atmosfera: são satélites que nós, humanos, colocamos lá e que seguem suas diferentes órbitas em diferentes velocidades, pra que milhares de metros abaixo, nós humanos, possamos baixar GIFs da Terra no nosso celular. É uma coisa muito louca.

Em geral, quando vemos imagens da Terra a partir do espaço, a tendência é nos apequenarmos diante delas. Vemos um mundo sem fronteiras, uma bola flutuante unificada por massas de ventos e oceanos intermináveis, e assim entendemos a dimensão da nossa insignificância. Mas, nessa imagem em específico, conseguimos ver um planeta que tem não apenas vida, como inteligência, tecnologia e comunicação. Tem também a Quinta Avenida, piercings e pirâmides. Isso faz com que nos sintamos parte de uma coisa muito impressionante: a vida inteligente neste planeta, o empreendimento da humanidade na Terra e a nossa capacidade de construir coisas e sentidos, de nos comunicar, enfim, perseverar.

A estrofe que diz “Eu caibo no mundo e o mundo cabe em mim” me emociona da mesma maneira que essa imagem da Terra. E em uma escala aumentada o show de terça-feira fez o mesmo: ele me fez sentir pequeno e gigante, sozinho no meio de 20 mil pessoas, e ao mesmo tempo parte de uma experiênca coletiva que precisava de cada uma daquelas 20 mil para existir.

Saí do show sentindo que tinha estado na presença de uma artista e que ela tinha feito o que toda boa arte deve fazer: unificar essas duas dimensões no tempo presente, nos deixar atentos à grandeza e à miudeza das coisas, humildes em face de uma, assombrados em face da outra. E vice-versa.